quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Ciência Precisa do Ateísmo? - parte XI - A Orígem da Vida: Uma Causação Inteligente ou o Acaso e Necessidade?



Nos capítulos anteriores dos textos selecionados de John Lennox, foi debatido sobre a informação genética, sua ligação com o DNA e a complexidade envolvida. Afirmar a existência de 7 bilhões de bits de informação no genoma humano nos dá alguma ideia – APENAS ALGUMA – de sua complexidade!

Vimos que os elementos do evolucionismo darwiniano relacionados à seleção natural, o acaso e a necessidade, em separado ou em conjunto, não conseguem explicar a biogênese, ou seja, a origem da vida. Precisamos considerar a possibilidade de que um terceiro fator esteja envolvido e este é a entrada de informação. Como vimos no artigo anterior:



“... É anticientífico e intelectualmente preguiçoso propor o que é, em essência, um tipo de solução envolvendo uma “inteligência das lacunas”, isto é, um “Deus das lacunas”. Ora, mesmo que a acusação deva ser levada à sério – no fim das contas é possível que um teísta seja intelectualmente preguiçoso e diga 'não consigo explicar isso, portanto foi feito por Deus' – é importante dizer que o que vale para um vale para outro. É também muito fácil dizer “a evolução fez isso”, quando não se tem a menor ideia de como isso aconteceu... sem uma base em evidências.… É tão fácil terminar como uma “evolução das lacunas” como com um “Deus das lacunas”... É até mais fácil terminar com uma “evolução das lacunas” do que com um “Deus das lacunas”, pois aquela conclusão provavelmente vai atrair menos crítica do que esta.”.



Tendo em mente que a arquitetura da escrita do DNA e a totalidade de informação contida nela tornam-a uma máquina irredutivelmente complexa, e considerando as tentativas de simulação em computador dessa linguagem, Steve Fuller opinou: 


“A própria perspectiva de simular a evolução num computador... já suporta a tese de um criador divino. Afinal, qualquer um desses programas de computador… é o produto de um design inteligente, não literalmente uma entidade que se organiza a si mesma sobrevivendo à beira do caos. Se os seres humanos conseguem programar um computador que gera um resultado com propriedades de auto-organização tão profundas, por que Deus não poderia?… A discussão do “design inteligente” como uma explicação alternativa da emergência da vida vai provavelmente ficar mais acalorada, à medida que os evolucionistas vão confiando cada vez mais em computadores para demonstrar que a história natural não é apenas complicada, mas genuinamente complexa. Isso porque ficará mais difícil distinguir uma posição da outra, e os evolucionistas vão jogar nos gramados dos teóricos do design inteligente. “(Steve Fuller, Science vs. Religion, Cambridge Polity, 2007, pg. 89)”.



Seguimos neste penúltimo artigo da série, apresentando seleções do Cap. X e XI do Livro POR QUE A CIÊNCIA NÃO CONSEGUE ENTERRAR DEUS, de John Lennox (Ed. Mundo Cristão):



INFORMAÇÃO E O ARGUMENTO DO “PROJETO”



A existência de suma informação especificada complexa (…) oferece um desafio fundamental para a ideia de que processos naturais não dirigidos podem explicar a vida, e torna cientificamente plausível a sugestão de que houve uma fonte inteligente responsável.


… A inferência do “projeto” a partir do DNA é muito mais forte do que seus predecessores clássicos pela seguinte razão apresentada nas palavras de Stephen Meyer:


“O DNA não implica a necessidade de um projetista inteligente por ele ter alguma similaridade com um programa de software ou com a linguagem humana. Ele implica a necessidade de um projetista inteligente porque... tem uma característica idêntica – quanto ao conteúdo informacional – àquela de textos humanos e linguagens de computador projetados de modo inteligente.” (Steve Fuller, Science vs. Religion, pg 23).


Meyer é apoiado pelo teórico da informação Hubert Yockey:

“É importante entender que não estamos raciocinando por analogia. A hipótese da sequência – de que o código genético funciona essencialmente como um livro – aplica-se diretamente à proteína e ao texto genético, bem como à linguagem escrita e, portanto, o tratamento é matematicamente idêntico.” (Self-Organization, Origin of Life Scenarios and Information Theory, Journal of Theor Biol. 91, 1981).


Não estamos, portanto, argumentando por analogia, mas sim inferindo a melhor explicação. E, como qualquer detetive sabe, causas que sabemos serem capazes de produzir um efeito observado é uma explicação melhor em relação àquele efeito do que causas que não sabemos se são capazes de produzir um efeito semelhante e… do que causas que sabemos que não são capazes de fazê-lo.


A BUSCA POR INTELIGÊNCIA EXTRATERRESTRE E SUAS IMPLICAÇÕES
 A NASA, administração espacial norte-americana, gastou milhões de dólares montando radiotelescópios para monitorar milhões de canais, na esperança de detectar uma mensagem de seres inteligentes de alguma outra parte no cosmos. (uma das principais provas de que há inteligência lá no espaço é que ela não tentou nos contatar!).

Embora alguns cientistas possam ver algumas atividades da SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre) com certo ceticismo, ela pode levantar uma questão importante no que se refere ao preciso status científico da descoberta de inteligência. Como se pode reconhecer CIENTIFICAMENTE uma mensagem que emana de uma fonte inteligente e distingui-la de um ruído ambiental aleatório que emana do cosmos? Claramente, a única maneira possível de fazê-lo é comparar os sinais recebidos com padrões especificados com antecedência, considerados indicadores claros e confiáveis de inteligência – como uma longa sequência de números primos – e depois fazer uma inferência de “design”. Na SETI o reconhecimento de interferência inteligente é visto como parte que se insere no escopo da ciência natural. O astrônomo Carl Sagan pensava que uma única mensagem proveniente do espaço seria suficiente para nos convencer da existência em outro universo diferente do nosso.

Mas há outra observação crucial a fazer. Estão-se preparados para procurar provas científicas além do nosso planeta, por que hesitamos tanto em aplicar exatamente o mesmo raciocínio àquilo que pertence ao nosso planeta? Parece haver aqui uma gritante inconsistência que nos conduz ao ponto essencial da questão a qual nos referimos... Será que a atribuição de um projeto inteligente ao universo é ciência? Os cientistas… parecem se dar por muito satisfeitos por incluir... A SETI na esfera da ciência. Como justificar então, tanto furor quando alguns cientistas alegam que há provas científicas de causação inteligente da física ou na biologia? Certamente não existe nenhuma diferença em princípio. Será que o método científico não se aplica em toda parte?
 … Que deveríamos, então, deduzir da avassaladora quantidade de informação que está contida até mesmo no sistema vivo mais simples? Será que isso, por exemplo, não oferece evidências muito mais fortes de uma origem inteligente do que as que foram apresentadas a partir do argumento da sintonia fina do Universo – um argumento que, como vimos, convence muitos físicos de que nós humanos fomos concebidos para estarmos aqui? Isso não poderia constituir a evidência real de inteligência extraterrestre?

 Por ocasião do anúncio público da conclusão do Projeto Genoma Humano, seu diretor, Francis Collins, disse: “É com um sentimento de humildade e assombro que me dou conta de que tivemos um primeiro vislumbre de nosso manual de instruções, antes conhecido apenas por Deus”. Gene Myers, o cientista da computação que trabalhou no mapeamento do genoma... Disse:

“Somos deliciosamente complexos no nível molecular... Ainda não nos entendemos, o que é ótimo. Ainda existe um elemento mágico, metafísico… O que realmente me impressiona é a arquitetura da vida… o sistema é extremamente complexo. É como se tivesse sido projetado… Existe ali uma enorme inteligência. Não vejo isso como não científico. Outros veem, mas eu não.”


Muito recentemente, o filósofo Antony Flew apresentou como motivo de sua conversão à crença em Deus, depois de mais de 50 anos sendo ateu, o fato de que a investigação do DNA pelos biólogos “tem mostrado, pela quase inacreditável complexidade da organização necessária para produzir a vida, que uma inteligência deve ter tido participação nisso”. (Associated Press Report, 9/12/2004).






UMA IDEIA QUE NÃO É NOVA, MAS ESTÁ EM CIRCULAÇÃO HÁ SÉCULOS.


“No princípio era o Verbo … Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele”, escreveu o apóstolo João, autor do quarto Evangelho. A palavra grega para “verbo” é LOGOS, um termo que foi usado por filósofos estoicos para designar o princípio racional por trás do Universo, que depois foi investido com sentidos adicionais por cristãos, que o empregaram para descrever a segunda pessoa da Trindade. O termo “verbo” em si nos transmite noções de comando, significado, código, comunicação – portanto, informação; bem como noções do poder criador necessário para realizar o que foi especificado por aquela informação. Assim, o verbo é mais fundamental do que massa-energia. Massa-energia pertence à categoria do criado. O Verbo não.


É de fato muito surpreendente que, no âmago da análise bíblica dos atos criativos, descartados por muitos com tanta arrogância, descobrimos exatamente o conceito que a ciência nos últimos tempos tem mostrado ser de suma importância: o conceito da informação.


 Essa noção central, de que o Criador é Deus, o Verbo, ou seja, a Palavra, se reflete na repetida frase: “E disse Deus [Haja luz...]” da narrativa judaica da criação, e é enfatizada em quase todas as declarações bíblicas em relação à criação. Tem particular interesse para nossa discussão a declaração: “Pela fé entendemos que foi o universo formado pela Palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”(Hebreus 11.3). Essa citação da antiga literatura bíblica é extraordinária no sentido de que chama a atenção para as características básicas da informação, isto é, a informação é invisível. Os transmissores da informação podem ser visíveis – como o papel e a escrita, os sinais de fumaça, as telas da televisão ou o DNA – mas a informação em si é invisível.

No entanto, a informação não é apenas invisível: ela é imaterial, não é mesmo? Você está lendo este artigo; fótons saltam da página e são recebidos por seus olhos; são convertidos em impulsos elétricos e transmitidos para seu cérebro. Suponhamos que você transmita oralmente algumas informações deste livro para um amigo. As ondas sonoras carregam a informação de sua boca para o ouvido de seu amigo, e em seguida elas são convertidas em impulsos elétricos e transmitidas ao cérebro dele. Seu amigo agora tem as informações que se originaram em sua mente, mas nada material passou de você para ele. Os TRANSMISSORES da informação foram materiais, MAS A INFORMAÇÃO EM SI NÃO É MATERIAL.


A COMPLEXIDADE DE DEUS

Postular a existência de um ser que é ainda mais complexo do que aquilo que se está tentando explicar é algo que os cientistas fazem constantemente. Ao lermos um livro de 400 páginas intitulado DEUS, UM DELÍRIO, será que o fato de eu, como explicação, postular um ser chamado Richard Dawkins, que é imensuravelmente mais complexo do que o livro em si, deve ser considerado como uma não explicação?

E na verdade nós nem precisamos de 400 páginas para nos convencer de explicações válidas que são mais complexas do que as coisas a explicar. Por exemplo, imagine uma arqueóloga, apontando para duas marcas riscadas nas paredes de uma caverna até então inexplorada, exclame: "Inteligência humana!". Se seguirmos a lógica de Dawkins, reagiremos: "Não seja ridícula. Aqueles rabiscos são muito simples. No fim das contas, só há dois deles. Não constitui nenhuma explicação postular a existência de algo tão complexo como o cérebro humano para explicar esses simples rabiscos na parede de uma caverna!". Que diríamos então se a arqueóloga pacientemente prosseguisse, dizendo que aqueles dois "simples" rabiscos formam o ideograma chinês (ren) para designar um ser humano, isto é, eles têm uma dimensão semiótica - transmitem significado?

Será que continuaríamos sustentando que, em termos de atividade humana, aquelas marcas rabiscadas "não constituem nenhuma explicação"? É óbvio que não. Nós admitiríamos que a inferência da arqueóloga em relação a uma atividade inteligente é legítima. Mais ainda, veríamos com certeza que a explicação dos rabiscos, em termos de algo mais complexo do que os rabiscos em si mesmos, não levou ao fim da ciência. Aquelas marcas riscadas bem poderiam ser indícios importantes em relação à identidade, cultura e inteligência do povo que as fez, mesmo que elas não pudessem nos dizer tudo o que se poderia saber sobre aquele povo.

Por acaso não é espantoso o fato de que a nossa arqueóloga infere de imediato uma origem inteligente quando se defronta com dois rabiscos, ao passo que alguns cientistas, diante de uma sequência de 3,5 bilhões de letras que constituem o genoma humano, nos informam que devemos explicar isso unicamente em termos de acaso e necessidade? Tanto os rabiscos como a sequencia do DNA tem uma dimensão semiótica. Não é à toa que chamamos a sequencia do DNA de CÓDIGO.

Lembre-se do que nós, com toda a certeza, deduziríamos se, ao visitar um planeta distante, encontrássemos uma sucessão de pilhas de perfeitos cubos de titânio com um número primo de cubos em cada pilha dispersos em ordem ascendente: 2, 3, 5, 7, 11, etc. Veríamos de imediato que havia ali um artefato produzido por um agente inteligente, mesmo que não fizéssemos nenhuma idéia do tipo de mediador inteligente de que se poderia tratar. As pilhas de cubos são em si mesmas muito "mais simples" do que a inteligência que as fez, mas esse fato não impede nossa dedução de uma origem inteligente como uma inferência razoável da melhor explicação. De modo instintivo inferimos "para cima", para uma causação inteligente; não "para baixo", para o acaso e necessidade.

Estamos tentando explicar um exemplo particular de complexidade organizada (a vida) e é, portanto, perfeitamente sensato fazer isso em termos de algo que é mais complexo, SE ISSO FOR O QUE AS EVIDÊNCIAS EXIGEM. As evidência, como vimos, são de que:
  1. A vida envolve um complexo banco de dados (DNA) de informação digital.
  2. A única fonte que conhecemos com essa complexidade semelhante a da linguagem é a inteligência.
  3. A ciência teórica da computação indica que o acaso e a necessidade não dirigidos são incapazes de produzir uma complexidade semiótica (semelhante a uma linguagem).

 QUEM CRIOU DEUS?

Há outra objeção à existência de Deus relacionada com a anterior. Muita atenção tem sido dedicada a ela pelo fato de que Richard Dawkins transformou-a no assunto central de sua obra campeã de vendas DEUS, UM DELÍRIO. É a velha pegadinha de um adolescente: Se nós dizemos que Deus criou o Universo, precisamos perguntar quem criou Deus e assim por diante, de modo que, segundo Dawkins, a única forma de escapar de um infinito regresso é negar que Deus exista.(The God Delusion, Richard Dawkins, pg. 136).

Pense apenas na pergunta: Quem criou Deus? O próprio ato de perguntar mostra que o autor da pergunta tem em mente um Deus CRIADO. Portanto, pouca surpresa o fato de alguém intitular seu próprio livro DEUS, UM DELÍRIO. Pois isso é exatamente o que é um Deus criado, um delírio, em virtude de sua definição - como mostrou Xenófanes, séculos antes de Dawkins. Um título mais informativo poderia ter sido: "O DEUS CRIADO, UM DELÍRIO." O livro então poderia reduzir-se a um panfleto - mas as vendas realmente teriam sofrido com isso.

O Deus que criou e sustenta o Universo não foi criado. Ele é eterno. Ele não foi "feito" e, portanto, não está sujeito às leis que a ciência descobriu; foi Ele que criou o Universo com suas leis. Na verdade, esse fato constitui a distinção fundamental entre Deus e o Universo. O Universo passou a existir. Deus não. Os antigos gregos já tinham consciência dessa distinção, e o apóstolo cristão João se refere a isso na frase que inicia seu evangelho: "No princípio era o Verbo...", isto é, o Verbo já existia. "E o Verbo estava com Deus, e o Verbo ERA Deus... Todas as coisas foram feitas - isto é, todas as coisas passaram a existir - por intermédio dele"(João 1.1, 3). Deus pertence à categoria do não criado. O Universo não. O Universo passou a existir; foi criado. Por Ele.

Os gregos ensinavam que:

  • A matéria sempre existiu e sempre existirá. Ela é eterna. Em seu estado básico, ela era informe, desorganizada e ilimitada: o caos. Mas depois surgiu um deus ou algo semelhante e impôs ordem nessa matéria preexistente, que se transformou num Universo bem organizado: o cosmos. Esse processo é o que os gregos entendiam por criação.
  • O criador faz parte de um sistema eterno no qual tudo no Universo emana de Deus, como os raios solares emanam do Sol; e assim, em certo sentido, tudo é Deus. Deus está de algum modo na matéria do Universo, ativamente engajado em mover e desenvolver a matéria para o melhor efeito.
 A antiga tradição hebraica, herdada pelo cristianismo e pelo islamismo, é muito diferente e, podemos observar, estivera presente durante séculos antes da época dos filósofos jônicos. Ela ensinava que:
  •  A matéria não é eterna; o Universo teve um começo, e xiste apenas um Deus eterno e Criador de tudo.
  • Deus existia antes do Universo e não depende dele. O Universo não é uma emanação de Deus. Deus o criou a partir do nada, não a partir de si mesmo, embora o mantenha e sustente objetivando seu fim designado.
Richard Dawkins, portanto, situa-se lá atrás com os gregos, e seu conceito de deuses "descendentes do céu e da terra" e, portanto, criados. De fato, ele bem poderia juntar-se à plateia que ouviu o apóstolo cristão Paulo na escola filosófica do Areópago de Atenas no 1º século. O historiador Lucas registra como Paulo havia notado em suas caminhadas pela cidade como era inadequada a visão de Deus dos cidadãos de Atenas - o lugar estava cheio de ídolos, havendo até um altar no qual estava inscrito "Ao deus desconhecido". Paulo, longe de adotar atitude típica de um fanático anti-intelectual agarrando-se a fantasias, havia estudado com afinco a cosmovisão grega e, apesar disso, não ficou menos surpreso diante da credulidade dos atenienses do que teria ficado Dawkins. Ele mostrou-lhes que um de seus poetas havia percebido que os seres humanos, num certo sentido, "de Deus são geração". Ele apresentou a inferência lógica para que eles a considerassem: "Sendo, pois a geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem"(Atos 17.29). Deuses produzidos pela incansável fertilidade da imaginação humana - deuses criados - não são nenhuma novidade.

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