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quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Ciência Precisa do Ateísmo? - parte XI - A Orígem da Vida: Uma Causação Inteligente ou o Acaso e Necessidade?



Nos capítulos anteriores dos textos selecionados de John Lennox, foi debatido sobre a informação genética, sua ligação com o DNA e a complexidade envolvida. Afirmar a existência de 7 bilhões de bits de informação no genoma humano nos dá alguma ideia – APENAS ALGUMA – de sua complexidade!

Vimos que os elementos do evolucionismo darwiniano relacionados à seleção natural, o acaso e a necessidade, em separado ou em conjunto, não conseguem explicar a biogênese, ou seja, a origem da vida. Precisamos considerar a possibilidade de que um terceiro fator esteja envolvido e este é a entrada de informação. Como vimos no artigo anterior:



“... É anticientífico e intelectualmente preguiçoso propor o que é, em essência, um tipo de solução envolvendo uma “inteligência das lacunas”, isto é, um “Deus das lacunas”. Ora, mesmo que a acusação deva ser levada à sério – no fim das contas é possível que um teísta seja intelectualmente preguiçoso e diga 'não consigo explicar isso, portanto foi feito por Deus' – é importante dizer que o que vale para um vale para outro. É também muito fácil dizer “a evolução fez isso”, quando não se tem a menor ideia de como isso aconteceu... sem uma base em evidências.… É tão fácil terminar como uma “evolução das lacunas” como com um “Deus das lacunas”... É até mais fácil terminar com uma “evolução das lacunas” do que com um “Deus das lacunas”, pois aquela conclusão provavelmente vai atrair menos crítica do que esta.”.



Tendo em mente que a arquitetura da escrita do DNA e a totalidade de informação contida nela tornam-a uma máquina irredutivelmente complexa, e considerando as tentativas de simulação em computador dessa linguagem, Steve Fuller opinou: 


“A própria perspectiva de simular a evolução num computador... já suporta a tese de um criador divino. Afinal, qualquer um desses programas de computador… é o produto de um design inteligente, não literalmente uma entidade que se organiza a si mesma sobrevivendo à beira do caos. Se os seres humanos conseguem programar um computador que gera um resultado com propriedades de auto-organização tão profundas, por que Deus não poderia?… A discussão do “design inteligente” como uma explicação alternativa da emergência da vida vai provavelmente ficar mais acalorada, à medida que os evolucionistas vão confiando cada vez mais em computadores para demonstrar que a história natural não é apenas complicada, mas genuinamente complexa. Isso porque ficará mais difícil distinguir uma posição da outra, e os evolucionistas vão jogar nos gramados dos teóricos do design inteligente. “(Steve Fuller, Science vs. Religion, Cambridge Polity, 2007, pg. 89)”.



Seguimos neste penúltimo artigo da série, apresentando seleções do Cap. X e XI do Livro POR QUE A CIÊNCIA NÃO CONSEGUE ENTERRAR DEUS, de John Lennox (Ed. Mundo Cristão):



INFORMAÇÃO E O ARGUMENTO DO “PROJETO”



A existência de suma informação especificada complexa (…) oferece um desafio fundamental para a ideia de que processos naturais não dirigidos podem explicar a vida, e torna cientificamente plausível a sugestão de que houve uma fonte inteligente responsável.


… A inferência do “projeto” a partir do DNA é muito mais forte do que seus predecessores clássicos pela seguinte razão apresentada nas palavras de Stephen Meyer:


“O DNA não implica a necessidade de um projetista inteligente por ele ter alguma similaridade com um programa de software ou com a linguagem humana. Ele implica a necessidade de um projetista inteligente porque... tem uma característica idêntica – quanto ao conteúdo informacional – àquela de textos humanos e linguagens de computador projetados de modo inteligente.” (Steve Fuller, Science vs. Religion, pg 23).


Meyer é apoiado pelo teórico da informação Hubert Yockey:

“É importante entender que não estamos raciocinando por analogia. A hipótese da sequência – de que o código genético funciona essencialmente como um livro – aplica-se diretamente à proteína e ao texto genético, bem como à linguagem escrita e, portanto, o tratamento é matematicamente idêntico.” (Self-Organization, Origin of Life Scenarios and Information Theory, Journal of Theor Biol. 91, 1981).


Não estamos, portanto, argumentando por analogia, mas sim inferindo a melhor explicação. E, como qualquer detetive sabe, causas que sabemos serem capazes de produzir um efeito observado é uma explicação melhor em relação àquele efeito do que causas que não sabemos se são capazes de produzir um efeito semelhante e… do que causas que sabemos que não são capazes de fazê-lo.


A BUSCA POR INTELIGÊNCIA EXTRATERRESTRE E SUAS IMPLICAÇÕES
 A NASA, administração espacial norte-americana, gastou milhões de dólares montando radiotelescópios para monitorar milhões de canais, na esperança de detectar uma mensagem de seres inteligentes de alguma outra parte no cosmos. (uma das principais provas de que há inteligência lá no espaço é que ela não tentou nos contatar!).

Embora alguns cientistas possam ver algumas atividades da SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre) com certo ceticismo, ela pode levantar uma questão importante no que se refere ao preciso status científico da descoberta de inteligência. Como se pode reconhecer CIENTIFICAMENTE uma mensagem que emana de uma fonte inteligente e distingui-la de um ruído ambiental aleatório que emana do cosmos? Claramente, a única maneira possível de fazê-lo é comparar os sinais recebidos com padrões especificados com antecedência, considerados indicadores claros e confiáveis de inteligência – como uma longa sequência de números primos – e depois fazer uma inferência de “design”. Na SETI o reconhecimento de interferência inteligente é visto como parte que se insere no escopo da ciência natural. O astrônomo Carl Sagan pensava que uma única mensagem proveniente do espaço seria suficiente para nos convencer da existência em outro universo diferente do nosso.

Mas há outra observação crucial a fazer. Estão-se preparados para procurar provas científicas além do nosso planeta, por que hesitamos tanto em aplicar exatamente o mesmo raciocínio àquilo que pertence ao nosso planeta? Parece haver aqui uma gritante inconsistência que nos conduz ao ponto essencial da questão a qual nos referimos... Será que a atribuição de um projeto inteligente ao universo é ciência? Os cientistas… parecem se dar por muito satisfeitos por incluir... A SETI na esfera da ciência. Como justificar então, tanto furor quando alguns cientistas alegam que há provas científicas de causação inteligente da física ou na biologia? Certamente não existe nenhuma diferença em princípio. Será que o método científico não se aplica em toda parte?
 … Que deveríamos, então, deduzir da avassaladora quantidade de informação que está contida até mesmo no sistema vivo mais simples? Será que isso, por exemplo, não oferece evidências muito mais fortes de uma origem inteligente do que as que foram apresentadas a partir do argumento da sintonia fina do Universo – um argumento que, como vimos, convence muitos físicos de que nós humanos fomos concebidos para estarmos aqui? Isso não poderia constituir a evidência real de inteligência extraterrestre?

 Por ocasião do anúncio público da conclusão do Projeto Genoma Humano, seu diretor, Francis Collins, disse: “É com um sentimento de humildade e assombro que me dou conta de que tivemos um primeiro vislumbre de nosso manual de instruções, antes conhecido apenas por Deus”. Gene Myers, o cientista da computação que trabalhou no mapeamento do genoma... Disse:

“Somos deliciosamente complexos no nível molecular... Ainda não nos entendemos, o que é ótimo. Ainda existe um elemento mágico, metafísico… O que realmente me impressiona é a arquitetura da vida… o sistema é extremamente complexo. É como se tivesse sido projetado… Existe ali uma enorme inteligência. Não vejo isso como não científico. Outros veem, mas eu não.”


Muito recentemente, o filósofo Antony Flew apresentou como motivo de sua conversão à crença em Deus, depois de mais de 50 anos sendo ateu, o fato de que a investigação do DNA pelos biólogos “tem mostrado, pela quase inacreditável complexidade da organização necessária para produzir a vida, que uma inteligência deve ter tido participação nisso”. (Associated Press Report, 9/12/2004).






UMA IDEIA QUE NÃO É NOVA, MAS ESTÁ EM CIRCULAÇÃO HÁ SÉCULOS.


“No princípio era o Verbo … Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele”, escreveu o apóstolo João, autor do quarto Evangelho. A palavra grega para “verbo” é LOGOS, um termo que foi usado por filósofos estoicos para designar o princípio racional por trás do Universo, que depois foi investido com sentidos adicionais por cristãos, que o empregaram para descrever a segunda pessoa da Trindade. O termo “verbo” em si nos transmite noções de comando, significado, código, comunicação – portanto, informação; bem como noções do poder criador necessário para realizar o que foi especificado por aquela informação. Assim, o verbo é mais fundamental do que massa-energia. Massa-energia pertence à categoria do criado. O Verbo não.


É de fato muito surpreendente que, no âmago da análise bíblica dos atos criativos, descartados por muitos com tanta arrogância, descobrimos exatamente o conceito que a ciência nos últimos tempos tem mostrado ser de suma importância: o conceito da informação.


 Essa noção central, de que o Criador é Deus, o Verbo, ou seja, a Palavra, se reflete na repetida frase: “E disse Deus [Haja luz...]” da narrativa judaica da criação, e é enfatizada em quase todas as declarações bíblicas em relação à criação. Tem particular interesse para nossa discussão a declaração: “Pela fé entendemos que foi o universo formado pela Palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”(Hebreus 11.3). Essa citação da antiga literatura bíblica é extraordinária no sentido de que chama a atenção para as características básicas da informação, isto é, a informação é invisível. Os transmissores da informação podem ser visíveis – como o papel e a escrita, os sinais de fumaça, as telas da televisão ou o DNA – mas a informação em si é invisível.

No entanto, a informação não é apenas invisível: ela é imaterial, não é mesmo? Você está lendo este artigo; fótons saltam da página e são recebidos por seus olhos; são convertidos em impulsos elétricos e transmitidos para seu cérebro. Suponhamos que você transmita oralmente algumas informações deste livro para um amigo. As ondas sonoras carregam a informação de sua boca para o ouvido de seu amigo, e em seguida elas são convertidas em impulsos elétricos e transmitidas ao cérebro dele. Seu amigo agora tem as informações que se originaram em sua mente, mas nada material passou de você para ele. Os TRANSMISSORES da informação foram materiais, MAS A INFORMAÇÃO EM SI NÃO É MATERIAL.


A COMPLEXIDADE DE DEUS

Postular a existência de um ser que é ainda mais complexo do que aquilo que se está tentando explicar é algo que os cientistas fazem constantemente. Ao lermos um livro de 400 páginas intitulado DEUS, UM DELÍRIO, será que o fato de eu, como explicação, postular um ser chamado Richard Dawkins, que é imensuravelmente mais complexo do que o livro em si, deve ser considerado como uma não explicação?

E na verdade nós nem precisamos de 400 páginas para nos convencer de explicações válidas que são mais complexas do que as coisas a explicar. Por exemplo, imagine uma arqueóloga, apontando para duas marcas riscadas nas paredes de uma caverna até então inexplorada, exclame: "Inteligência humana!". Se seguirmos a lógica de Dawkins, reagiremos: "Não seja ridícula. Aqueles rabiscos são muito simples. No fim das contas, só há dois deles. Não constitui nenhuma explicação postular a existência de algo tão complexo como o cérebro humano para explicar esses simples rabiscos na parede de uma caverna!". Que diríamos então se a arqueóloga pacientemente prosseguisse, dizendo que aqueles dois "simples" rabiscos formam o ideograma chinês (ren) para designar um ser humano, isto é, eles têm uma dimensão semiótica - transmitem significado?

Será que continuaríamos sustentando que, em termos de atividade humana, aquelas marcas rabiscadas "não constituem nenhuma explicação"? É óbvio que não. Nós admitiríamos que a inferência da arqueóloga em relação a uma atividade inteligente é legítima. Mais ainda, veríamos com certeza que a explicação dos rabiscos, em termos de algo mais complexo do que os rabiscos em si mesmos, não levou ao fim da ciência. Aquelas marcas riscadas bem poderiam ser indícios importantes em relação à identidade, cultura e inteligência do povo que as fez, mesmo que elas não pudessem nos dizer tudo o que se poderia saber sobre aquele povo.

Por acaso não é espantoso o fato de que a nossa arqueóloga infere de imediato uma origem inteligente quando se defronta com dois rabiscos, ao passo que alguns cientistas, diante de uma sequência de 3,5 bilhões de letras que constituem o genoma humano, nos informam que devemos explicar isso unicamente em termos de acaso e necessidade? Tanto os rabiscos como a sequencia do DNA tem uma dimensão semiótica. Não é à toa que chamamos a sequencia do DNA de CÓDIGO.

Lembre-se do que nós, com toda a certeza, deduziríamos se, ao visitar um planeta distante, encontrássemos uma sucessão de pilhas de perfeitos cubos de titânio com um número primo de cubos em cada pilha dispersos em ordem ascendente: 2, 3, 5, 7, 11, etc. Veríamos de imediato que havia ali um artefato produzido por um agente inteligente, mesmo que não fizéssemos nenhuma idéia do tipo de mediador inteligente de que se poderia tratar. As pilhas de cubos são em si mesmas muito "mais simples" do que a inteligência que as fez, mas esse fato não impede nossa dedução de uma origem inteligente como uma inferência razoável da melhor explicação. De modo instintivo inferimos "para cima", para uma causação inteligente; não "para baixo", para o acaso e necessidade.

Estamos tentando explicar um exemplo particular de complexidade organizada (a vida) e é, portanto, perfeitamente sensato fazer isso em termos de algo que é mais complexo, SE ISSO FOR O QUE AS EVIDÊNCIAS EXIGEM. As evidência, como vimos, são de que:
  1. A vida envolve um complexo banco de dados (DNA) de informação digital.
  2. A única fonte que conhecemos com essa complexidade semelhante a da linguagem é a inteligência.
  3. A ciência teórica da computação indica que o acaso e a necessidade não dirigidos são incapazes de produzir uma complexidade semiótica (semelhante a uma linguagem).

 QUEM CRIOU DEUS?

Há outra objeção à existência de Deus relacionada com a anterior. Muita atenção tem sido dedicada a ela pelo fato de que Richard Dawkins transformou-a no assunto central de sua obra campeã de vendas DEUS, UM DELÍRIO. É a velha pegadinha de um adolescente: Se nós dizemos que Deus criou o Universo, precisamos perguntar quem criou Deus e assim por diante, de modo que, segundo Dawkins, a única forma de escapar de um infinito regresso é negar que Deus exista.(The God Delusion, Richard Dawkins, pg. 136).

Pense apenas na pergunta: Quem criou Deus? O próprio ato de perguntar mostra que o autor da pergunta tem em mente um Deus CRIADO. Portanto, pouca surpresa o fato de alguém intitular seu próprio livro DEUS, UM DELÍRIO. Pois isso é exatamente o que é um Deus criado, um delírio, em virtude de sua definição - como mostrou Xenófanes, séculos antes de Dawkins. Um título mais informativo poderia ter sido: "O DEUS CRIADO, UM DELÍRIO." O livro então poderia reduzir-se a um panfleto - mas as vendas realmente teriam sofrido com isso.

O Deus que criou e sustenta o Universo não foi criado. Ele é eterno. Ele não foi "feito" e, portanto, não está sujeito às leis que a ciência descobriu; foi Ele que criou o Universo com suas leis. Na verdade, esse fato constitui a distinção fundamental entre Deus e o Universo. O Universo passou a existir. Deus não. Os antigos gregos já tinham consciência dessa distinção, e o apóstolo cristão João se refere a isso na frase que inicia seu evangelho: "No princípio era o Verbo...", isto é, o Verbo já existia. "E o Verbo estava com Deus, e o Verbo ERA Deus... Todas as coisas foram feitas - isto é, todas as coisas passaram a existir - por intermédio dele"(João 1.1, 3). Deus pertence à categoria do não criado. O Universo não. O Universo passou a existir; foi criado. Por Ele.

Os gregos ensinavam que:

  • A matéria sempre existiu e sempre existirá. Ela é eterna. Em seu estado básico, ela era informe, desorganizada e ilimitada: o caos. Mas depois surgiu um deus ou algo semelhante e impôs ordem nessa matéria preexistente, que se transformou num Universo bem organizado: o cosmos. Esse processo é o que os gregos entendiam por criação.
  • O criador faz parte de um sistema eterno no qual tudo no Universo emana de Deus, como os raios solares emanam do Sol; e assim, em certo sentido, tudo é Deus. Deus está de algum modo na matéria do Universo, ativamente engajado em mover e desenvolver a matéria para o melhor efeito.
 A antiga tradição hebraica, herdada pelo cristianismo e pelo islamismo, é muito diferente e, podemos observar, estivera presente durante séculos antes da época dos filósofos jônicos. Ela ensinava que:
  •  A matéria não é eterna; o Universo teve um começo, e xiste apenas um Deus eterno e Criador de tudo.
  • Deus existia antes do Universo e não depende dele. O Universo não é uma emanação de Deus. Deus o criou a partir do nada, não a partir de si mesmo, embora o mantenha e sustente objetivando seu fim designado.
Richard Dawkins, portanto, situa-se lá atrás com os gregos, e seu conceito de deuses "descendentes do céu e da terra" e, portanto, criados. De fato, ele bem poderia juntar-se à plateia que ouviu o apóstolo cristão Paulo na escola filosófica do Areópago de Atenas no 1º século. O historiador Lucas registra como Paulo havia notado em suas caminhadas pela cidade como era inadequada a visão de Deus dos cidadãos de Atenas - o lugar estava cheio de ídolos, havendo até um altar no qual estava inscrito "Ao deus desconhecido". Paulo, longe de adotar atitude típica de um fanático anti-intelectual agarrando-se a fantasias, havia estudado com afinco a cosmovisão grega e, apesar disso, não ficou menos surpreso diante da credulidade dos atenienses do que teria ficado Dawkins. Ele mostrou-lhes que um de seus poetas havia percebido que os seres humanos, num certo sentido, "de Deus são geração". Ele apresentou a inferência lógica para que eles a considerassem: "Sendo, pois a geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem"(Atos 17.29). Deuses produzidos pela incansável fertilidade da imaginação humana - deuses criados - não são nenhuma novidade.

    segunda-feira, 19 de maio de 2014

    A Ciência Precisa do Ateísmo? - parte X - A Verdadeira Definição de Evolução

    Como prometido, segue a continuação do artigo anterior:


    DEFINIÇÃO DE EVOLUÇÃO

    O que, então, significa evolução? Aqui estão algumas das ideias para as quais se emprega o termo EVOLUÇÃO?

    1. Mudança, desenvolvimento, variação
    Aqui a palavra é empregada para descrever mudança, sem nenhuma implicação do tipo de mecanismo ... envolvido na efetuação da mudança. Nesse sentido falamos de "evolução do automóvel", caso em que, naturalmente, uma boa dose de [intervenção] inteligente se faz necessária. Falamos da "evolução de um litoral", em que o processo natural do mar e do vento, da flora e da fauna, modula o contorno da costa ao longo do tempo, além das possíveis medidas tomadas por engenheiros para impedir a erosão. Quando as pessoas falam da "evolução da vida" nesse sentido, tudo o que elas querem dizer é que essa vida surgiu e se desenvolveu (por quaisquer meios). Empregado dessa maneira, o termo "evolução" é neutro, inócuo e indiscutível.

    2. Microevolução: Variação dentro de limites estabelecidos de complexidade, variação quantitativa de órgãos ou estruturas já existentes.
    ...Esse aspecto da teoria não é nada controverso, pois os efeitos da seleção natural, a mutação, a derivação genética, etc, são constantemente registrados [pela pesquisa científica]. (Isso, naturalmente, significa que a dicotomia de [Richard] Dawkins de "Deus ou evolução, mas não as duas coisas" é demasiado simplista. Todos concordam que ocorrem processos microevolucionários, e assim, de uma perspectiva teísta, o mundo que Deus criou é um mundo no qual o processo da seleção natural desempenha seu papel. Um exemplo clássico, com o qual nós, lamentavelmente, estamos muito familiarizados no mundo inteiro é o modo pelo qual as bactérias desenvolvem sua resistência contra os antibióticos.

    3. Macroevolução
    Esta se refere a uma inovação em grande escala, ao aparecimento de novos órgãos, estruturas, novos planos corporais, de materiais genéticos qualitativamente novos; por exemplo, a evolução de estruturas multicelulares a partir de estruturas unicelulares.

    4. Seleção artificial, por exemplo, na geração de plantas e animais
    Criadores produzem muitos tipos diferentes de rosas e ovelhas a partir de linhagens básicas, mediante cuidadosos métodos de geração. Esse processo envolve um alto grau de [intervenção] inteligente; e, assim, embora ele seja muito citado, em particular pelo próprio Darwin, que argumentava que aquilo que os homens podem fazer num tempo relativamente curto a natureza poderia fazer num espaço mais longo, esse processo não apresenta por si só nenhuma prova a favor da evolução por meio de um processo NÃO DIRIGIDO.

    5. Evolução molecular.
    ... O termo "evolução molecular" é hoje empregado para descrever o aparecimento da célula viva a partir de materiais não vivos.

    ... À luz dessas ambiguidades no significado da evolução... Se "questionar a evolução" significa questioná-la nos sentidos 1, 2 ou 4, então uma acusação de estupidez ou ignorância poderia ser compreensível. Como já dissemos, ninguém põe seriamente em dúvida a validade da microevolução e da mudança nos ciclos como exemplos da atividade da seleção natural.

    ... Falando de maneira mais simples ... a seleção natural favorece a prole forte em detrimento da fraca numa situação de recursos limitados. Ela ajuda a preservar todas as mutações benéficas. Os organismos que passam por essas mutações sobrevivem, os outros não. Mas a seleção natural não causa as mutações. Essas ocorrem ao acaso. A quantidade de recursos (alimento) disponível é um dos parâmetros variáveis nessa situação. Eu, que sou matemático, tive a ideia de que seria interessante ver o que acontece se esse parâmetro aumentar. Convido você a fazer um experimento mental. Imagine uma situação na qual os recursos aumentem de modo que, no caso limite, há alimento para todos, para os fortes e para os fracos. à medida que os recursos aumentassem, a atuação da seleção natural pareceria cada vez menor, pois a maior parte da prole sobreviveria...




    O LIMITE DA EVOLUÇÃO
    Embora alguns biólogos resistam a diferenciar a microevolução da macroevolução, os termos são muitas vezes empregados para distinguir, A GROSSO MODO, a evolução abaixo e acima do nível das espécies, havendo um debate sobre o ponto exato onde se deveria traçar a linha divisória. A resistência contra essa distinção surge com frequência porque o processo evolucionário é considerado como um todo indivisível; considera-se que a macroevolução é simplesmente o que resulta de processos da microevolução em atividade por longos períodos de tempo. Essa é a visão dos "gradualistas", como Richard Dawkins e Dennett, que contorna a principal questão de saber se a evolução é realmente um todo indivisível ou não; se, por exemplo, os mecanismos de evolução que podem, digamos, explicar razoavelmente as variações do comprimento dos bicos dos tentilhões  ou do desenvolvimento da resistência a antibióticos nas bactérias, podem, em primeiro lugar, explicar a existência dos tentilhões e das bactérias. Em outras palavras, a questão principal é esta: há um "limite" para a evolução?

    ... A hipótese de uma ancestralidade comum equivale [em método] à do [projeto] comum, no sentido de que quaisquer acusações de serem científicas ou não científicas que se possam levantar contra uma delas, também podem ser igualmente levantadas contra a outra. Por exemplo, postular um PROJETISTA não observado não é mais anticientífico do que postular passos macroevolucionários não observados. Com certeza, está muito clero que a "evolução das lacunas" está no mínimo tão alastrada quanto a do "Deus das lacunas".
    ...Resumindo o debate até este ponto, a alegação de que o ateísmo pode ser deduzido da biologia evolucionária é falsa. Em 1º lugar, pela razão lógica de que não se pode deduzir uma cosmovisão de uma ciência; e, em 2º lugar, porque avanços científicos desde a época de Darwin não sustentam a idéia de que o "relojoeiro cego" da mutação e da seleção natural explique a existência e a variedade de toda a vida. Certamente o mecanismo da mutação e da seleção explica grande parte da variação que Darwin e nós observamos, mas sua abrangência é circunscrita. Pareceria haver um limite para a evolução, um limite para aquilo que um relojoeiro cego pode fazer.


    A ORIGEM DA VIDA NA ESTRUTURA DA PROTEÍNA
    "Criar uma proteína pela simples injeção de energia é como explodir uma banana de dinamite debaixo de uma pilha de tijolos e esperar que isso forme uma casa. Você pode liberar energia suficiente para levantar os tijolos, mas, sem juntar aos tijolos a energia de uma forma controlada e ordenada, há pouca esperança de produzir alguma coisa que não seja uma confusão caótica." (The Fifth Miracle, Paul Davies, pg. 61).

    Uma coisa é produzir tijolos; outra coisa inteiramente diferente é organizar a construção de uma casa ou de uma fábrica. Se você precisasse, poderia construir uma casa usando pedras encontradas por aí, de todas as formas e tamanhos que elas assumiram devido a causas naturais. Todavia, a organização da construção exige algo que não está contido nas pedras. Requer a inteligência do arquiteto e a habilidade do construtor. A mesma coisa acontece na construção dos elementos essenciais da vida. O acaso cego simplesmente não fará o trabalho de juntá-los de um modo determinado.

    ... Um dos mais eminentes dentre os cientistas que pesquisam a origem da vida, Leslie Orgel resumiu a posição da seguinte forma:

    "Há várias teorias defensáveis sobre a origem da matéria orgânica nos primórdios da Terra, mas em nenhum caso as provas abduzidas são convincentes. De modo semelhante, vários cenários alternativos poderiam explicar a auto-organização de uma entidade auto-replicante a partir da matéria orgânica pré-biótica, mas todos os que são bem formulados se baseiam em sínteses químicas hipotéticas que são problemáticas." (The Origin of Life: A Review of Facts and Speculations, Trends in Biochemical Sciences, 23, 1998).

    Orgel, portanto, ecoa a visão de Klaus Dose, também um proeminente pesquisador da origem da vida, que 10 anos antes fizera a seguinte avaliação:
    "Mais de 30 anos de experiências sobre a origem da vida nos campos da evolução química e molecular, em vez de levar a uma solução, produziram uma percepção mais apurada da imensidão do problema da origem da vida no planeta. Atualmente todas as discussões sobre as principais teorias e experimentos nesse campo ou terminam num beco sem saída ou numa confissão de ignorância." (The Origin of Life: More Questions than Answers, Interdisciplinary Science Reviews, 1988).

    Francis Crick, que não é conhecido por gostar de milagres, apesar de tudo escreveu: "A origem da vida parece quase um milagre, tantas são as condições que supostamente deveriam ter sido satisfeitas para desencadeá-la".(Life Itself, pg. 88).

    Tudo isso nos leva a pensar que o veredicto de Stuart Kaufmann, do Instituto Santa Fé, é válido: "Quem lhe disser que sabe como começou a vida na Terra há 3,45 bilhões de anos é um maluco ou um embusteiro. Ninguém sabe." (At Home in the Universe, pg. 31).




    Encerro esta seleção de trechos sobre a Evolução, com ainda este último:


     ...Paul Davies escreve:
    ..."Claramente a evolução darwiniana por variação e seleção naturasl tem o que é necessário para gerar a aleatoriedade (riqueza de informação) e também a funcionalidade biológica rigorosamente especificada no mesmo sistema".(In Many Worlds, pg. 21).

    [Contudo], ...Davies parece contradizer o que acaba de dizer, ao acrescentar:
    "O problema, no que se refere à biogênese [orígem da vida], é que o darwinismo só pode operar quando a vida (alguma espécie dela) já está em andamento. ELE NÃO CONSEGUE EXPLICAR COMO COMEÇA A VIDA EM PRIMEIRO LUGAR".(In Many Worlds, pg. 21, 22).

    Mas que outra possibilidade existe além do acaso e da necessidade? Bem, como Sherlock Holmes poderia nos sugerir, se o acaso e a necessidade, em separado ou em conjunto, não conseguem explicar a biogênese, então precisamos considerar a possibilidade de que um 3º fator esteja envolvido. A 3ª possibilidade é a entrada de informação.

    Essa sugestão será recebida por um coro de protestos, dizendo que não se trata de uma história de detetive, e que, em todo caso, é anticientífico e intelectualmente preguiçoso propor o que é, em essência, um tipo de solução envolvendo uma "inteligência das lacunas", isto é, um "Deus das lacunas". Ora, mesmo que a acusação deva ser levada à sério - no fim das contas, é possível que um teísta seja intelectualmente preguiçoso e diga, com efeito, "Não consigo explicar isso. Portanto foi feito por Deus" - é importante dizer que o que vale para um, vale para outro. É também muito fácil dizer "a evolução fez isso" quando não se tem a menor ideia de como isso aconteceu, ou quando apenas se alinhavou uma história do tipo "exatamente assim", sem uma base em evidências. De fato, como já vimos, um materialista TEM de dizer que os processos naturais foram os únicos responsáveis, pois, em seu livros, não se admite alternativa. Resulta disso que é tão fácil terminar com uma "Evolução das lacunas" como com um "Deus das lacunas". POderíamos até dizer que é mais fácil terminar com uma "evolução das lacunas" do que com um "Deus das lacunas", pois aquela conclusão provavelmente vai atrair menos crítica do que esta.


    Trechos do capítulo 6, 7 e 8 de Por Que a Ciência não Consegue Enterrar Deus, do matemático e pesquisador John Lennox. Ed. Mundo Cristão)

    domingo, 4 de maio de 2014

    A Ciência Precisa do Ateísmo? - parte IX - A Teoria da Evolução leva ao Ateísmo?

    LIGEIRO RESUMO DO QUE JÁ FOI APRESENTADO

    Dei início à reformulação de meu blog com objetivo redirecionado para a frase sub-título do mesmo, com a série de artigos "A CIÊNCIA PRECISA DO ATEÍSMO?".
    Esta série de artigos traz trechos selecionados do excelente livro POR QUE A CIÊNCIA NÃO CONSEGUE ENTERRAR DEUS?, escrito pelo matemático teísta e cristão John Lennox e publicado pela editora Mundo Cristão. É um livro acadêmico e científico, contudo escrito em linguagem inteligível a todos. Tem por objetivo provar por A mais B, que não existe necessidade alguma da interligação entre a ciência e o ateísmo. Rápido resumo das partes já lançadas:
    • ARQUIVOS DE MARÇO
    1. Prefácio apresentando as duas cosmovisões antagônicas que pleiteiam coadunar-se com a ciência: o teísmo e o naturalismo ateísta.
    2. Continuação do prefácio com o artigo O Último Prego no Caixão de Deus.
    3. Apresentação das origens da ciência, ligadas ao teísmo.
    4. Continuação da análise histórica, apresentando o legado de Galileu Galilei e explicação das diferenças entre o Teísmo e o Naturalismo Ateísta.
    5. Ilustração do "Bolo da Tia Matilde" e debate se Deus realmente é uma hipótese desnecessária na ciência.
    • ARQUIVOS DE ABRIL
         6.   Debate sobre a explicação do "Deus das lacunas", ou seja, na falta de uma explicação lógica, simplesmente coloca-se Deus como o responsável por tudo, sem um embasamento científico.
         7.   O papel da fé na ciência; debate sobre o começo do universo.
         8.   Provas de um projeto intencional do Universo na cosmologia



     PARTE IX: PROVAS DA BIOLOGIA DE UM PROJETO INTENCIONAL DA NATUREZA


    (...) Desde a época dos grandes pensadores do mundo antigo, como Aristóteles e Platão, até a dos biólogos modernos,  o mundo vivo tem sido uma fonte de infinita maravilha. Quem pode deixar de se maravilhar diante da habilidade típica dos pombos de voltar para casa; do instinto migratório do cisne de Bewick; do sistema de eco-localização do morcego; do centro de controle da pressão sanguínea localizado no cérebro da girafa; e dos músculos no pescoço do pica-pau, para mencionar apenas alguns de uma lista interminável que vai crescendo todos os dias? O mundo vivo está simplesmente repleto de mecanismos de atordoante complexidade.
    Assim, não há dúvida de que a natureza causa uma avassaladora IMPRESSÃO de que há um projeto por trás de tudo.
    (...) Bem poderíamos nos admirar com a capacidade desse surpreendente mecanismo evolucionário, com seu criativo poder de produzir vida e consciência a partir da matéria, sua habilidade de criar os magníficos padrões da natureza e de construir seus mecanismos para processar informações. Não uma Mente Divina, diz Richard Dawkins, mas um mecanismo puramente materialista e não guiado. Por mais tentador que seja pensar que a natureza tenha sido projetada visando a um propósito, ele afirma que não há necessidade de um "relojoeiro" divino.
    "O único relojoeiro da natureza são as forças cegas da física, apesar de organizadas de uma maneira muito especial. Um verdadeiro relojoeiro tem previsão; ele projeta suas engrenagens e molas e planeja suas ligações, visualizando um propósito futuro. A seleção natural, o processo cego, inconsciente, automático, que Darwin descobriu, e que nós agora sabemos ser a explicação da existência e da forma aparentemente proposital de toda vida, não visualiza um propósito. Ela não tem nem mente, nem visão mental; ela não planeja o futuro. Ela não tem absolutamente nenhuma visão, nem previsão, nem vislumbre. Se se pode dizer que ela desempenha um papel de relojoeiro da natureza trata-se do papel de relojoeiro cego." (Lessons from Biology, Natural History nº 97, 1988 , pg 14).
    Dawkins alega que nada além das leis físicas é necessário - um ponto muito importante ao qual devemos voltar mais adiante.















    A EVOLUÇÃO ELIMINA A NECESSIDADE DE UM CRIADOR?

    (...) De fato, não muito tempo depois da publicação de A ORIGEM DAS ESPÉCIES de Charles Darwin, o famoso ateu americano Robert Green Ingersoll escreveu que o séc. 19 seria o "Século de Darwin", quando "Sua doutrina da evolução... tiver removido de cada mente pensante o último vestígio do cristianismo ortodoxo".(Orthodoxy).
    Essa ideia foi repetida por Sir Julian Huxley quando, em Chicago, no centenário da obra de Darwin em 1959, ele resumiu como via as implicações da evolução:
    "No esquema evolucionário de pensamento já não há nem necessidade nem espaço para o sobrenatural. A Terra não foi criada; ela evoluiu. Também evoluíram todos os animais e as plantas que nela habitam, inclusive a nossa alma, mente e identidade humana, bem como o nosso cérebro e corpo. O mesmo aconteceu com a religião..." (Evolution After Darwin, Sol Tax.)
    Na opinião de Huxley acima, a evolução desaloja Deus, apresentando-nos uma explicação puramente naturalista da origem, não apenas da vida, mas também das faculdades mais altas da consciência e do pensamento.
    Essa visão de que o ateísmo é uma consequência lógica da teoria evolucionária não se encontra apenas em livros de divulgação científica popular, mas também em livros didáticos universitários. Tome-se, por exemplo, a seguinte afirmação de um conceituado livro-texto universitário sobre a evolução, escrito por Monroe Strickberger, do Museu de Zoologia dos Vertebrados de Berkeley, Califórnia:
    "O medo de que o darwinismo fosse uma tentativa de desalojar Deus na esfera da criação se justificava. Para a pergunta: 'Há um propósito divino para a criação de seres humanos?', a evolução responde: NÃO. De acordo com a evolução, a adaptação de espécies e a adaptação de seres humanos provém da seleção natural, não de um DESIGN [projeto]."(Evolution, pg. 62).
    (...) Causa, portanto, pouca surpresa o fato de existir um sentimento generalizado de que a teoria da evolução tenha varrido Deus como algo desnecessário e irrelevante, quando não embaraçoso. 
    Assim, temos diante de nós uma situação bastante estranha: De um lado, há a quase instintiva e avassaladora tentação de inferir da existência e da natureza das informações biológicas que elas têm uma origem inteligente.
    De outro lado, algumas das pessoas (...) opõem-lhe forte resistência, porque estão convencidas de que não existe a necessidade de nenhum projetista; processos evolucionários não dirigidos, aleatórios podem ser, e foram, a causa de tudo.
    [Richard Dawkins] (...) não tem dúvidas de que, com Darwin, nós atingimos um imenso divisor de águas na história do pensamento:
    "Nós já não temos de recorrer à superstição quando enfrentamos profundos problemas: Há um significado para a vida? Para que estamos aqui? O que é o homem? ..." (The Selfish Gene, pg. 1).
    O argumento de Dawkins é que, se os mecanismos evolucionários podem explicar o aparente PROJETO do universo, então a inferência de uma origem inteligente é falsa. Ele nos diz que não podemos ter ambos: Deus e a evolução. Uma vez que tudo pode ser explicado pela evolução, não há Criador. A evolução leva ao ateísmo.


    A EVOLUÇÃO EXCLUI DEUS?

    [Contudo] (...) Pode-se, portanto, certamente argumentar que... tanto da sintonia fina do Universo no nível físico quanto da capacidade de seus processos de produzir vida orgânica mediante um processo de evolução, é, em si mesma, forte evidência de uma inteligência criativa.
    Não surpreende, portanto, o fato de que essa visão teísta evolucionária tenha sido elogiada por muitos cientistas ... até os dias de hoje. 
    (...) Na Grã-Bretanha, por exemplo,  Ghillean Prance, ex-diretor do mundialmente famoso jardim botânico Kew Gardens de Londres; Brian Heap, ex-vice-presidente da Royal Society; Bob White, professor de Geologia da Universidade de Cambridge; Simon Conway Morris, professor de paleobiologia da mesma universidade; Sam Berry, professor de biologia evolucionária na Universidade de Londres; Denis Alexander, diretor do Instituto Faraday, em Cambridge. São todos distintos biólogos evolucionistas contemporâneos que são teístas, e também cristãos. Nos Estados Unidos temos Francis Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, que cunhou o termo BIOLOGOS em preferência ao termo "evolução teísta". Com veemência, todos eles rejeitariam como inválida qualquer tentativa de deduzir o ateísmo a partir da teoria evolucionista. Como ressalta Alister MacGrath: "Há uma verdadeira lacuna lógica entre o Darwinismo e o ateísmo que Richard Dawkins prefere preencher com sua retórica, deixando de lado as evidências".(Dawkin's God, pg. 81).
    (...) Stephen Jay Gould diz que "a ciência simplesmente não pode - mediante seus métodos legítimos - julgar a questão da possível existência de Deus. Nós nem a afirmamos, nem a negamos; nós simplesmente não podemos, como cientistas, comentá-la."(Impeaching a Self-Appointed Judge, Scientif American, 267, 1992, pg. 118-121).


    A PERGUNTA QUE NINGUÉM OUSA FAZER

    É verdadeira a alegação de Richard Dawkins de que a seleção natural explica não apenas a FORMA da vida, mas também sua EXISTÊNCIA?
    Ora, fazer essa pergunta é muito arriscado. Até mesmo fazer algo tão revolucionário como questionar a constância da velocidade da luz não provoca nada parecido com o furacão desencadeado contra a pessoa que ousa duvidar da validade de certos aspectos da síntese neo-darwinista. De fato, a questão provoca Dawkins de modo tão sério que ele chega a proclamar sua crença (bastante inesperada) num absoluto: "É absolutamente seguro dizer que se você encontra alguém que afirma não crer na evolução, essa pessoa é ignorante, obtusa ou demente". (Put Your Money on Evolution, The New York Times Review of Books, 9/4/1989, pg. 34, 35). Até a formulação "AFIRMA não crer na evolução" mostra a total incredulidade de Dawkins de que alguém pudesse realmente ter dúvidas...
    Assim enfrento agora uma importante decisão: devo prosseguir e arriscar um Certificado de Demência conferido por Dawkins? Por que não parar, já satisfeito com a argumentação feita até aqui? Bem, além, da razão que acabei de apresentar, a mera veemência do protesto me fascina. Por que ele é tão forte? Além disso, por que é apenas em relação a essa área do trabalho intelectual que já ouvi um eminente cientista com um Prêmio Nobel em seu nome, nada menos que isso, dizer numa palestra pública em Oxford: "Não se deve questionar a evolução"? Afinal, os cientistas tiveram coragem de questionar até Newton e Einstein. De fato, a maioria de nós ... aprendeu a acreditar que o questionamento da sabedoria estabelecida era uma das maneiras mais importantes de crescimento da ciência. Toda ciência, por mais estabelecida que esteja, se beneficia por ser periodicamente questionada. Então, por que esse tabu acerca do questionamento da evolução? Por que essa área, e apenas essa área específica da ciência, é proibida, protegida de questionamentos?
    Um eminente paleontólogo chinês, Jun-Yuan Chen, viu-se diante desse problema quando visitou os EUA em 1999. Sua obra sobre descobertas notáveis de estranhas criaturas fósseis em Chengjiang o levou a questionar a linha evolucionária ortodoxa. De forma bastante erudita, ele mencionou suas críticas em palestras, mas elas despertaram pouco interesse. Essa falta de reação o surpreendeu e, assim, ele no fim perguntou a um de seus anfitriões o que havia de errado. Ele soube então que os cientistas americanos não gostavam de ouvir tais críticas à evolução. Ao que ele deu uma deliciosa resposta, dizendo que lhe parecia que a diferença entre os EUA e a China era a seguinte: "Na China nós podemos criticar Darwin, mas não o governo. Nos EUA vocês podem criticar o governo, mas não Darwin".
    (...) Donald Mckay, um especialista em pesquisas de redes de comunicação do cérebro...
    "A 'evolução' começou a ser invocada na biologia, aparentemente como uma substituta para Deus. E se na biologia, por que não em outras áreas? Depois de ser empregado como uma hipótese técnica ... o termo foi rapidamente distorcido para significar um princípio metafísico ateu, cuja invocação podia livrar o homem de qualquer arrepio teológico diante do Universo. Escrito com E maiúsculo e desonestamente ornado com o prestígio de teoria científica da evolução (o que ... não lhe conferiu nenhum pingo de justificativa), o 'Evolucionismo' tornou-se o nome de toda filosofia antirreligiosa, na qual a 'Evolução' desempenhou o papel de uma divindade mais ou menos pessoal, como a 'verdadeira força do Universo'".(The Clockwork Image, pg 52).

    O questionamento da evolução, MESMO SOBRE BASES CIENTÍFICAS, está cheio de riscos. Por isso, aos olhos de muitos, equivale a questionar o que, para eles, é simplesmente factual em virtude de uma necessidade filosófica; e assim quem questiona corre o risco de ser classificado - quando não certificado - como membro de uma facção de lunáticos. Mas, por ironia, esse tipo de atitude é precisamente o que enfrentou Galileu. Há um luminoso paralelo entre o aristotelismo de sua época e o naturalismo da nossa. Galileu correu o risco de questionar Aristóteles, e todos nós sabemos o que lhe aconteceu. Também sabemos quem estava certo. A questão é a seguinte: Será que aprenderemos alguma coisa de tudo isso? Darwin precisa ser protegido da maneira como foi Aristóteles? Afinal, era um fato claro, não era mesmo, que a Terra não se movia?

    No próximo capítulo, analisaremos mais a fundo a natureza e o escopo da evolução. Até lá!
    Trechos do capítulo 5 de Por Que a Ciência não Consegue Enterrar Deus, do matemático e pesquisador John Lennox. Ed. Mundo Cristão)

    quinta-feira, 24 de abril de 2014

    A Ciência Precisa do Ateísmo? - Parte VIII: Um Universo de Projeto Intencional

    Nicolau Copérnico foi responsável por uma revolução no pensamento científico. Desbancando a idéia de que a Terra estava fixa no centro do Universo, Ele iniciou um processo de rebaixamento da importância da Terra, que resultou na difundida visão de que ela é um planeta bastante típico, percorrendo uma órbita ao redor de um sol bastante típico, que está posicionado numa ramificação da espiral de uma galáxia bastante típica, que é um universo bastante típico. Essa redução da importância da Terra é às vezes conhecida como o Princípio de Copérnico.
    Todavia... o extraordinário cenário que vai gradativamente emergindo da física e da cosmologia modernas mostra um Universo cujas forças fundamentais estão surpreendente, intrincada e delicadamente equilibradas ou FINAMENTE SINTONIZADAS, a fim de que o Universo possa sustentar a vida. Pesquisas recentes mostram que muitas das constantes básicas da natureza, desde os níveis de energia no átomo de carbono até a taxa de expansão do Universo, têm justamente os valores exatos para que a vida exista. Fosse alguma delas minimamente alterada, o Universo se tornaria hostil à vida e incapaz de sustentá-la. As constantes estão afinadas com precisão, e é essa sintonia fina que muitos cientistas e outras pessoas acham que exige uma explicação. 
    ... Para a vida existir na terra faz-se necessário um abundante suprimento de carbono. O carbono se forma pela combinação de 3 núcleos de hélio ou pela combinação de núcleos de hélio e berílio. ... Fred Hoyle, eminente matemático e astrônomo, descobriu que para que isso aconteça os níveis de energia do estado nuclear básico tinham de estar finamente sintonizados entre si.  Esse fenômeno se chama "ressonância". Se sua variação fosse mais do que 1 % a mais ou a menos, o Universo não poderia sustentar a vida. Hoyle confessou mais tarde que nada havia abalado tanto seu ateísmo como essa descoberta. Esse mesmo grau de sintonia fina foi suficiente para persuadi-lo de que parecia que "um superintelecto havia brincado com a física e também com a química e a biologia" e que "não há na natureza forças cegas dignas de discussão" (Annual Reviews os Astronomy and Astrophysics 20, 1982, pg. 16)
    ... O físico teórico Paul Davies nos diz que, se a razão da força nuclear forte em relação à força eletromagnética fosse diferente à razão de 1 parte em 10 elevada à 16ª potência, nenhuma estrela poderia ter-se formado. Além disso, a razão da constante de força eletromagnética em relação à constante de força gravitacional deve ser do mesmo modo delicadamente equilibrada. Um aumento equivalente a apenas 1 parte em 10 elevada à 40ª potência significaria que só estrelas pequenas poderiam existir; a diminuição na mesma proporção significa que só existiriam estrelas grandes. É preciso que existam estrelas pequenas e grandes no Universo: as grandes produzem elementos em suas fornalhas termonucleares; e somente as pequenas queimas o tempo suficiente para sustentar um planeta com vida.
    Usando a ilustração de Davies, esse é o tipo de precisão que um exímio atirador precisaria ter para acertar uma moeda no extremo oposto do Universo observável, a uma distância de 20 bilhões de anos-luz. 

    ... O cosmos ainda nos reserva outras surpresas chocantes. Argumenta-se que uma alteração na força de expansão e contração à razão tão diminuta de 1 parte em 10 elevada à 55ª potência do "tempo de Planck" teria provocado ou uma expansão do Universo demasiado rápida, sem a formação de galáxias, ou demasiado lenta, provocando um rápido colapso.
    No entanto, até mesmo esse exemplo de sintonia fina é completamente eclipsado por aquilo que é talvez o exemplo mais espantoso para a mente humana. Nosso Universo é um Universo no qual a entropia (uma medida de desordem) está aumentando... O "objetivo do Criador [projetista]" deve ser preciso à razão de 1 parte em 10 elevada à 123ª potência, isto é, ... um "número que seria impossível escrever por extenso segundo a tradicional forma decimal, porque, mesmo que pudéssemos pôr um zero em cada partícula do Universo, ainda assim não haveria partículas suficientes para realizar a tarefa" (The Emperor's New Mind, pg. 344).
    Diante não de um, mas de muitos exemplos espetaculares semelhantes de sintonia fina, talvez não cause surpresa que Paul Davies diga: "Tem-se a impressão de que alguém sintonizou muito bem os números da natureza para criar o Universo... A impressão de um projeto é avassaladora".(The Cosmic Blueprint, pg. 203).
    Até aqui estivemos considerando a sintonia fina sobretudo num nivel  cosmológico de larga escala. Quando pensamos nas condições específicas que são necessárias mais perto de nossa casa, em nosso sistema solar e na Terra,  descobrimos que há inúmeros outros parâmetros que necessitam de extrema precisão para que a vida seja possivel. Alguns deles são óbvios para todos nós. A distância da Terra até o Sol deve ser exatamente correta. Perto demais, a água evaporaria; longe demais, a Terra seria demasiado fria para a vida. Uma mudança de apenas cerca de 2 %, e isso faria toda a vida cessar. A gravidade e a temperatura da superfície também são críticas, não podendo variar mais do que alguns graus para que a Terra tenha uma atmosfera capaz de sustentar a vida - retendo a mistura correta de gases necessários para a vida. O planeta precisa girar na velocidade correta: se fosse lento demais, as diferenças de temperatura entre o dia e a noite seriam demasiado extremas; se fosse rápido demais, as velocidades dos ventos seriam desastrosas. E assim continua a lista. O astrofísico Hugh Ross elenca muitos parâmetros semelhantes que precisam ter sintonia fina para que a vida seja possivel, e faz um cálculo, aproximado, mas conservador, de que a probabilidade de um planeta como a Terra existir no Universo é de aproximadamente de 1 em 10 elevada à 30ª potência.
    [Esses] ... não são argumentos do "Deus das Lacunas"; foi o avanço da ciência, não a ignorância dela, que nos revelou essa sintonia fina.. Nesse sentido, não há "lacuna" na ciência. A questão é antes a seguinte: Como deveríamos interpretar a ciência? Para que direção ela aponta?
    John Polkinghorne... que é ... um eminente teórico quântico, rejeita a interpretação de muitos universos:
    "Vamos reconhecer essas especulações pelo que elas são. Não são físicas, mas sim, no sentido mais estrito, metafísicas. Não há uma razão puramente científica para crer num conjunto de Universos. Por sua construção, esses outros universos não podem ser conhecidos por nós. Uma explicação possível com igual respeitabilidade intelectual - e a meu ver com mais economia e elegância - seria a de que este mundo é como é porque é a criação da vontade de um Criador que pretende que ele assim seja."(One World, pg. 80). 
    O filósofo Richard Swinburne vai ainda mais longe: "Postular trilhões de trilhões de outros universos, em vez de um só Deus, para explicar a regularidade do nosso Universo, parece o cúmulo da irracionalidade."(Is There a God?, pg. 68).
    ... Arno Penzias apresenta a argumentação de outro modo: "Algumas pessoas se sentem desconfortáveis com o mundo criado com um propósito. Para apresentar coisas que contradizem o propósito, elas tendem a especular acerca de coisas que não viram". (Genius Talk, Denis Brian).

    ... Outra versão da teoria do multiverso, a interpretação dos muitos mundos da mecânica quântica, é que todos os multiversos logicamente possíveis existem. Todavia, se todos os universos possíveis existem, então, segundo o filósofo Alvin Plantinga da Universidade Notredame, deve haver um Universo no qual existe Deus, pois sua existência é logicamente possível - embora altamente improvável na visão dos novos ateus. Segue-se então que, sendo Deus onipotente,  ele deve existir em todos os Universos e, portanto, existe apenas um universo, este Universo, do qual ele é o Criador e sustentador.
    ... Arno Penzias nos lembra que... "Os melhores dados que temos - acerca do Big Bang -  são exatamente os que eu teria previsto se de nada mais dispusesse do que dos 5 livros de Moisés, os Salmos e a Biblia como um todo". (Em Malcom Browne, New York Times, Clues to the Universe's Origin Expected, 12/03/1978).
    ... Para Penzias, como para muitos outros cientistas, as majestosas palavras com as quais Gênesis começa não perderam nada de sua relevância ou poder: "No princípio, criou Deus os céus e a terra.". Não é, portanto, surpresa nenhuma o fato de que o BIG BANG tenha sido primeiramente discutido - na Nature em 1931 - por um físico e astrônomo, Georges Lemaitre, que também era um religioso.

     ... Os argumentos que usamos a partir da cosmologia e da física são baseados em padrões da ciência contemporânea que desfrutam de ampla aceitação. Não são argumentos que envolvem qualquer desafio que seja a alegações tradicionais da ciência e, como sublinhamos acima, não são certamente argumentos do "Deus das lacunas": eles não se reduzem a "A ciência não consegue explicar isso, portanto Deus o fez". É por esses dois motivos que os argumentos da sintonia fina, por exemplo, recebem facilmente a atenção da maioria dos cientistas, concordem estes ou não com as conclusões que deles tiramos. Argumentos desse tipo têm a marca da compatibilidade com a autêntica atividade científica.

    Trechos do capítulo 4 de Por Que a Ciência não Consegue Enterrar Deus, do matemático e pesquisador John Lennox. Ed. Mundo Cristão)

    No próximo artigo abordaremos sobre a BIOSFERA PROJETADA. Até lá!