O que somos nós, seres humanos? E o que é o Universo? Ele é realmente nossa casa, ou somos apenas minúsculos seres transitórios que ele por acaso produziu como matéria e energia, para que de modo negligente, explorássemos o inerente potencial das leis da natureza?
... Como sempre, as respostas que recebemos para essas perguntas são de tipos muito diferentes. Alguns cientistas pensam que somos alienígenas no cosmos, "uma espinha na cara do universo", produzido pelo vasto turbilhão do acaso e necessidade que dita o comportamento físico do Universo. Somos o "produto de um processo natural e inconsciente e sem objetivo que não nos tinha em mente", nas palavras do biólogo George G. Simpson, em The Meaning of Evolution, pg. 344.
Mas há aqueles que não se sentem alienígenas no Universo. O físico Freeman Dyson é um desses. Escreve ele: "Quando olhamos para o universo e identificamos os muitos acidentes de física e astronomia que colaboraram para o nosso benefício, quase parece que o Universo deve de algum modo ter sabido que estávamos chegando." (Energy in the Universe, Scientific American Magazine 224, de 1971, pg. 50)
Outro físico, Paul Davies, também não está convencido de que somos meras partículas insignificantes de pó animado. Ele escreve: "Não posso acreditar que nossa existência no Universo seja um mero capricho do destino, um acidente da história, um pequeno ponto incidental no grande drama cósmico. Nosso envolvimento é íntimo demais... Fomos realmente concebidos para estarmos aqui." (The Mind of God, pg 232)
Davies sugere com clareza que há uma mente por trás do Universo, que pensou nos seres humanos quando o Universo foi criado. Por que Dyson e Davies pensam como pensam? O Universo em si nos fornece alguma pista que poderia ser a base para o pensamento de que os seres humanos têm alguma importância?
Fornece. a 1ª pista é:
A INTELIGIBILIDADE RACIONAL DO UNIVERSO... O próprio conceito da inteligibilidade do Universo pressupõe a existência de uma racionalidade capaz de reconhecer essa inteligibilidade... Trata-se da pedra fundamental da crença sobre a qual se constrói toda a investigação intelectual. Pretendo mostrar que o Teísmo lhe confere uma justificativa consistente e racional, ao passo que o naturalismo parece impotente diante desse problema.
A inteligibilidade racional é uma das principais considerações que levaram pensadores de todas as gerações a concluir que o próprio Universo deve ser um produto de inteligência.
A NATUREZA E O PAPEL DA FÉ NA CIÊNCIA... Não se pode sequer fazer matemática sem a fé em sua consistência. - e tem de ser fé, porque a consistência da matemática não pode ser provada.
... Pense-se na lei do quadrado inverso da atração gravitacional de Newton.Por estarmos tão acostumados a sua explicação de como os planetas giram em torno do sol em movimentos elípticos e a usarmos (ou melhor, os especialistas a usam) para prever todos os tipos de eventos astronômicos, eclipses e coisas do gênero, muitas vezes não percebemos que há uma dimensão de fé oculta até nesse ponto. Ela é denunciada por nossa crença de que aquilo que aconteceu hoje vai acontecer de novo amanhã... Paul Davies comenta:
"O simples fato de o sol ter surgido todos os dias de nossa vida não garante que ele surgirá amanhã. a Crença de que isso acontecerá - de que há de fato regularidades confiáveis da natureza - é um ato de fé, do tipo que é indispensável para o progresso da ciência."(The Mind of God, pg. 81)
Esse aspecto da inteligibilidade racional do Universo é muitas vezes mencionado como o princípio da uniformidade da natureza. É um artigo da fé científica.
Infelizmente as duas ideias - a de que toda fé religiosa é fé cega e a de que a ciência não envolve fé - estão tão profundamente entranhadas na psiquê dos novos ateus e, portanto, são tão disseminadas em seus escritos que precisamos enfatizar com veemência que eles estão equivocados. John Haught escreve:
"Em algum ponto da validação de todas as alegações ou hipóteses de verdade, um salto de fé é um ingrediente indispensável. Na base de todas as buscas humanas do entendimento e da verdade, incluindo-se a pesquisa científica, está presente um elemento de confiança que não pode ser erradicado. Se você se pegar duvidando do que acabo de dizer, é apenas porque, neste exato momento, você confia na sua mente o suficiente para preocupar-se com a minha asserção. Você não pode deixar de confiar em sua capacidade intelectual, mesmo quando está em dúvida. Além disso, você expõe seu questionamento crítico porque ACREDITA que vale a pena procurar a verdade. A fé, nesse sentido, NÃO no sentido de loucas fantasias e desejos impossíveis, está na raiz de toda religião - e ciência - autênticas".
Haught conclui com razão que isso "mostra de forma clara que as tentativas dos novos ateus de purificar a consciência humana da fé são absurdas e estão condenadas ao fracasso."
Nossa resposta à pergunta de por que o Universo é racionalmente inteligível dependerá, na verdade, não de sermos ou não cientistas, mas de sermos teístas ou naturalistas. Os teístas ... dirão que a inteligibilidade do Universo se baseia na natureza da racionalidade suprema de Deus: tanto o mundo real quanto a matemática podem ser remetidos à mente de Deus que criou ambos, o Universo e a mente humana. Não causa, portanto, surpresa quando as teorias matemáticas engendradas por mentes humanas criadas à imagem da mente de Deus encontrem uma aplicação fácil num Universo cujo arquiteto foi essa mesma mente criativa.
Keith Ward defende com vigor essa visão:
"... A existência de leis da física ... implica fortemente que existe um Deus que formula essas leis e garante que o reino físico se conforme a elas." (God, Chance and Necessity)
O teísmo, portanto, sustenta a inteligibilidade racional do universo e vê sentido nela... Longe da ciência que abole Deus, parece haver um argumento substancial a favor da afirmação de que é a existência de um Criador que confere à ciência sua justificativa intelectual fundamental. Até Stephen Hawking, que ocupa a a cadeira que já foi de Sir Isaac Newton, em Cambridge, e que como se sabe não nutre simpatias pelo teísmo, admitiu em uma entrevista na TV:
"É difícil discutir o início do Universo sem mencionar o conceito de Deus. Minha obra sobre a origem do Universo situa-se na fronteira entre a ciência e a religião, mas eu tento ficar do lado científico da fronteira. É bem possível que Deus atue de maneiras que não podem ser descritas por leis científicas."(Entrevista à ABC TV em 1989).
RECORDANDO-SE DA HISTÓRIA DO BOLO DA TIA MATILDE, NO ARTIGO PARTE 5...
Nem o Universo nem o bolo da tia Matilde geram ou explicam a si mesmos. A "autogeração" de Peter Atkins é dele exigida por seu materialismo, não por sua ciência.
Stephen Hawking, em contrapartida, parece concordar com o argumento apontado por nossa história da Tia Matilde, isto é, que a ciência não pode responder à pergunta de por que existe um Universo. Escreve ele:
"A abordagem comum da ciência de construir um modelo matemático não pode responder às perguntas que indagam por que deveria existir um universo a ser descrito pelo modelo. Por que o Universo se dá a todo esse trabalho de existir? Seria a teoria unificada tão convincente a ponto de produzir sua própria existência? Ou será que ela precisa de um Criador, e, nesse caso, ele exerce algum outro efeito sobre o Universo?" (Creation Revisited, pg. 174).
A 1ª sugestão de Hawking nesse ponto não é que o Universo seja gerador de si mesmo, mas que ele é trazido à existência por uma teoria. Paul Davies diz algo semelhante numa entrevista:
"Não é necessário invocar nada sobrenatural nas origens do Universo ou da vida. Jamais gostei da ideia de uma intervenção divina: para mim é muito mais inspirador crer que um conjunto de leis matemáticas possa ser tão engenhoso a ponto de fazer que todas as coisas existam."(Relatado por Clive Cookson em Scientists Who Glimpsed God, publicado no Financial Times, 29/04/ 1995).
É estranho que um cientista consagrado como Davies esteja disposto a decidir como as coisas começaram baseando-se naquilo de que ele gosta ou não gosta. Isso não é melhor do que alguém que diz: "Eu gosto de pensar que há fadas no fundo do meu jardim". Além disso, ele está aqui atribuindo inteligência (se não personalidade) a um conjunto de leis matemáticas - e acreditando que elas poderiam ser inteligentes baseando-se no fato de que ele acha isso inspirador! Isso é pensamento fantasioso ou o quê?
Deixando de lado essa motivação que parece dúbia, bem podemos perguntar o que se poderia querer dizer com TEORIA ou LEIS capazes de conferir existência ao Universo. Com certeza esperamos estar aptos a formular teorias envolvendo leis matemáticas que descrevam fenômenos naturais, e, muitas vezes, sabemos fazer isso atingindo graus de assombrosa precisão. Todavia, as leis que descobrimos não podem causar coisa alguma. As leis de Newton podem descrever o movimento de uma bola de bilhar, mas é o taco empunhado pelo jogador que põe a bola em movimento, não as leis. Elas ajudam a mapear a trajetória do movimento da bola no futuro (desde que não haja interferências externas), mas são impotentes para pôr a bola em movimento, quanto mais para conferir-lhe existência.
... No mundo em que a maioria de nós vive, a simples lei da aritmética, 1 + 1 = 2, nunca por si só conferiu existência a coisa alguma. Ela, com certeza, nunca depositou nenhum dinheiro em minha conta bancária. Se eu primeiro depositar R$ 1.000,00 em minha conta e depois mais R$ 1.000,00, as leis da aritmética explicarão de forma lógica como acontece que agora tenho R$ 2.000,00 na conta. Mas se eu mesmo não depositar nenhum dinheiro no banco e apenas deixar que as leis da aritmética se encarreguem de trazer dinheiro para a minha conta, permanecerei falido para sempre. O mundo do naturalismo estrito, no qual as engenhosas leis matemáticas sozinhas conferem existência ao universo e à vida, é pura e pobre ficção. chamá-la de ficção CIENTÍFICA seria denegrir o nome da ciência. Teorias e leis simplesmente não conferem existência a nada. A visão de que elas, apesar disso, de algum modo tem essa capacidade parece um refugio um tanto desesperado (e é difícil ver que outra coisa isso poderia ser, senão um refugio) para proteger-se da possibilidade alternativa contida na questão final de Hawking apresentada antes: "Ou será que ela (a teoria) precisa de um Criador?"
Allan Sandage, considerado como um dos precursores da astronomia moderna, descobridor dos quasares e ganhador do prêmio Crafoord, equivalente ao prêmio Nobel para a astronomia, não tem dúvida de que a resposta a essa questão é positiva:
"Acho muito improvável que essa ordem seja proveniente do caos. Deve haver algum princípio organizador. Para mim, Deus é um mistério, mas é a explicação para o milagre da existência - por que existe alguma coisa em vez de nada."(The New York Times, 12/03/1991, pg. B9).
O COMEÇO DO UNIVERSO
A questão da existência do Universo é considerada como sendo logicamente distinta da questão que indaga se o Universo teve ou não um começo. Se o Universo teve um começo ou não é uma questão de importância fundamental para a história do pensamento.. Ela está vinculada a questões acerca da natureza da realidade suprema. Pois, se o Universo não teve um começo, ele é eterno e nós poderíamos argumentar que ele é simplesmente um fato bruto da existência. Em contrapartida, se o Universo teve um começo, ele não é eterno e, por essa razão, não é supremo.
... Muito antes dos antigos gregos, os hebreus acreditavam que o tempo era linear e que o universo teve um começo. Ele fora criado, e o Criador era Deus. Essa visão bíblica foi sustentada por pensadores importantes como Agostinho, Irineu e Tomás de Aquino, e dominou o panorama intelectual durante muitos séculos.
Ora, é de particular interesse observar que Tomás de Aquino, no séc. 13, tentou reconciliar a posição bíblica com a filosofia aristotélica enfatizando que, no seu ponto de vista, o conceito de criação tinha muito mais a ver com existência do que com processo. Segundo Agostinho, ele acreditava que Deus havia criado "com o tempo" em vez de no tempo. Na opinião dele, portanto, a criação significava simplesmente que o Universo depende de Deus para sua existência. Tomás de Aquino achava que era impossível dizer, a partir de considerações filosóficas, se o Universo era eterno ou não: Ainda que admitisse que a revelação divina mostrava que ele de fato teve um começo.
Para grande parte da era científica moderna depois de Copérnico, Galileu e Newton, a crença em geral voltou-se para a ideia de um universo finito tanto em idade quanto em extensão. A partir de então, desde meados do séc. 19, essa visão começou a sofrer uma pressão cada vez maior, a ponto de ter perdido completamente seu domínio. A crença num começo é mais uma vez a visão da maioria dos cientistas contemporâneos. As evidências a partir do desvio para o vermelho à luz de galáxias distantes, da radiação cósmica de fundo e da termodinâmica levaram os cientistas a formular o assim chamado modelo BIG BANG do Universo.

A ANTIPATIA PELA IDEIA DE UM COMEÇO
... Nem todos os cientistas estão convencidos de que o modelo BIG BANG seja correto.
... Para alguns cientistas e filósofos, as considerações baseadas em cosmovisões desempenham um papel em sua antipatia pela ideia de um começo.
... Segundo Stephen Hawking: "Muitos cientistas não gostam da ideia de que o tempo tem um começo, provavelmente porque ela cheira a intervenção divina"(A Brief History of Time, From the Big Bang to Black Holes, pg. 46).
... Outro famoso cientista que achou repugnante a ideia de um começo é John Maddox, ex-editor da revista Nature. Ele declarou a concepção de um começo "completamente inaceitável", porque implicava "uma origem suprema do nosso mundo" e dava aos criacionistas uma "ampla justificativa" para suas crenças.
É bastante irônico que no séc. 16 algumas pessoas resistissem aos avanços da ciência porque eles pareciam ameaçar a crença em Deus; ao passo que, no séc. 20, as ideias científicas de um começo tenham sofrido resistência porque ameaçavam tornar mais plausível a crença em Deus.
Há outra questão a ser levantada acerca da declaração de Maddox. Ouve-se com frequência a crítica desferida contra aqueles cientistas que acreditam num Criador por não terem um modelo do Universo que leve a previsões testáveis. Mas esse comentário de Maddox mostra que isso simplesmente não é verdadeiro. Sua antipatia pela ideia de um começo era motivada precisamente porque um modelo de criação do tipo bíblico claramente previa um começo e ele não aceitava essa confirmação. Todavia, as evidências de uma singularidade de tempo-espaço na forma da descoberta das radiações cósmicas de fundo, etc, confirmaram a previsão óbvia implícita no relato bíblico. Isso significa que a acusação de que noções de um PROJETO inteligente não são científicas porque não fazem nenhuma previsão verificável é falsa. A própria ciência tem mostrado que a hipótese da criação é testável.
... Quanto mais ficamos sabendo sobre o nosso Universo, tanto mais a hipótese de que existe um Deus Criador, que projetou o Universo com um propósito, ganha em credibilidade como a melhor explicação do motivo de estarmos aqui. Charles Tones, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1964 por sua descoberta do MASER (o precursor do LASER), escreveu:
"A meu ver, a questão da origem parece ficar sem resposta se a explorarmos de um ponto de vista científico. Assim, eu acredito que uma explicação religiosa ou metafísica se faz necessária. Acredito no conceito de Deus e na existência Dele."(Making Waves, American Physical Society, 1995).
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