"Note-se que não estou postulando um 'Deus das lacunas'; um deus só para explicar as coisas que a ciência ainda não explicou. Estou postulando um Deus para explicar por que a ciência explica; não nego que a ciência explique, mas postulo Deus para explicar por que a ciência explica. O próprio sucesso da ciência demonstrando-nos como o mundo natural é profundamente ordenado nos apresenta fortes razões para acreditar que há uma causa ainda mais profunda para essa ordem." (Será que Deus existe, Richard Swinburne, pg. 68).
O filósofo Swinburne está fazendo uma inferência para chegar à melhor explicação e dizer que DEUS é a melhor explicação para o poder explanatório da ciência.
O ponto importante a captar aqui é que, pelo fato de Deus não ser uma alternativa para a ciência como uma explicação, ele não deve ser entendido apenas como um "Deus das lacunas". Pelo contrário, Ele é a base de toda explicação: é a existência dele que dá origem à própria possibilidade de explicação, científica ou de outro gênero. É importante enfatizar isso porque autores influentes, tais como Richard Dawkins, insistem em conceber Deus como uma alternativa explanatória para a ciência - uma ideia que não se encontra em nenhuma reflexão teológica de alguma profundidade. Dawkins está, portanto, investindo contra um moinho de vento - descartando um conceito de Deus no qual nenhum pensador sério de modo algum acredita.
'DES'-DEIFICAÇÃO DO UNIVERSO: OS PRIMEIROS CIENTISTAS
Precisamos, de qualquer forma, investigar mais a fundo a alegação de muitos cientistas de que o ateísmo é uma pressuposição necessária para a prática da verdadeira ciência. Eles acham que qualquer proposta para introduzir Deus como uma explicação do Universo em qualquer nível provará ser o fim da ciência. Se, por exemplo, quando troveja, nós supusermos, como alguns dos antigos, que na verdade um deus está produzindo aquele barulho, então não vamos nem podemos investigar o mecanismo por trás do barulho. Só pressupondo que não existem deuses podemos estar livres para investigar os mecanismos da natureza de uma forma de fato científica: introduzam-se deuses de qualquer etapa, e a ciência para. Para eles, Deus é um entrave para a ciência.
Com certeza: precisamos nos livrar da deificação das forças da natureza para podermos, com liberdade, estudar a natureza. De grande importância no presente contexto é Xenófanes (cerca de 570-478 aC) de Colofão, cidade próxima a Smirna, na atual Turquia. Embora seja conhecido por suas tentativas de entender a importância dos fósseis de criaturas marinhas descobertas em Malta, é até mais famoso por sua contundente denúncia da visão mitológica do mundo. Ele ressaltou que foi atribuído aos deuses um comportamento que, entre os humanos, seria considerado como totalmente vergonhoso: os deuses eram malandros, ladrões e adúlteros. Na verdade, ele sustentou que esses deuses haviam sido de fato feitos à imagem das pessoas que acreditavam neles: os etíopes têm deuses morenos e de nariz achatado; os deuses da Trácia têm olhos azuis e cabelos ruivos. Zombeteiro, ele acrescentou: "Se vacas e cavalos ou leões tivessem mãos e pudessem desenhar, então os cavalos desenhariam deuses em forma de cavalos, as vacas teriam deuses como vacas, criando corpos divinos semelhantes em forma a seus próprios corpos". Assim, para Xenófanes, esses deuses eram apenas óbvias ficções infantis da fértil imaginação dos que acreditavam neles.
Essa denúncia dos deuses, juntamente com a determinação de investigar os processos naturais, até então entendidos quase só como atividade daqueles deuses, inevitavelmente levou ao declínio as interpretações mitológicas do Universo e ao avanço da ciência. Esse esvaziamento no mundo natural dos deuses, demônios e espíritos é muitas vezes chamado de des-deificação do Universo.
Xenófanes não foi, contudo, o único pensador antigo a criticar a cosmovisão politeísta. Mas importante ainda, ele não foi nem o primeiro. Sem que ele tivesse conhecimento ... e com séculos de antecedência, Moisés havia advertido de que não se adorassem outros deuses, prostrando-se "diante do sol, ou diante da lua, ou diante das estrelas do céu."(Deuteronômio 17.3). O profeta hebreu Jeremias, por exemplo, escrevendo por volta de 600 aC, denunciou de modo semelhante o absurdo da deificação da natureza e da adoração do sol, da lua e das estrelas (Jeremias 8.2).
Neste ponto poderíamos com facilidade incorrer no erro de concluir de forma precipitada que livrar-se dos deuses implica ou equivale a livrar-se de Deus. Longe disso. Para Moisés e os profetas era absurdo prostrar-se diante de vários fragmentos do Universo, tais como o Sol, a lua e as estrelas, considerando-os deuses. Mas eles achavam igualmente absurdo não acreditar no Deus criador e não prostrar-se diante daquele que os criou, bem como ao Universo. E aqui, convém notar, eles não estavam introduzindo uma ideia radicalmente nova. Eles não precisavam des-deificar seu Universo como fizeram os gregos, pela simples razão de que eles nunca haviam acreditado nos deuses. O que os havia salvado dessa superstição fora sua crença em um único Deus verdadeiro, criador do céu e da terra. Isto é, o Universo idólatra e politeísta descrito por Homero e Hesíodo não foi o primeiro quadro mundial da humanidade. Essa é uma impressão que se adquire muitas vezes pelo fato de que a maioria dos livros de ciência e filosofia começa com os antigos gregos e enfatiza a importância da des-deificação do Universo, deixando exatamente de mostrar que os hebreus haviam protestado contra interpretações idólatras do Universo muito antes dos gregos. Isso serve para obscurecer o fato de que é possível argumentar que o politeísmo constitui a deturpação de uma crença original em um único Deus criador. Foi essa deturpação que precisou ser corrigida mediante a recuperação - não o descarte - da crença no Criador.
É, portanto, muito surpreendente o fato de que Xenófanes, apesar de estar mergulhado numa cultura politeísta, não tenha cometido o erro de confundir Deus com os deuses e, portanto, não rejeitou o primeiro juntamente com os demais. Acreditando num só Deus que governava o Universo, ele escreveu: "Há um só Deus ... não semelhante aos mortais nem na forma nem no pensamento ... distante e sem esforço, ele tudo governa".
A obra de Tomás e Aquino, do séc. 13, também é relevante nesta discussão. Ele considerava Deus como a 1ª causa, a causa suprema de todas as coisas. Deus causou diretamente a existência do Universo que, sendo assim, dependia dele. Isso é o que podemos chamar de causação direta. Mas então Tomás de Aquino sustentou que havia um 2º nível de causação operando no Universo, chamado de causação secundária. Esse nível consistia na rede de causas e efeitos tecida pelo vasto sistema entrelaçado e interdependente que é o Universo. Assim, o fato de que as explicações da causação secundária podem ser apresentadas na forma de leis e mecanismos não implica a não existência do Criador, do qual depende a própria existência da rede de causas e efeitos.
A noção de que a crença num Deus criador que criou e sustenta o Universo significaria o fim da ciência é francamente falaciosa. De fato, poderíamos dizer que se trata de uma ideia um tanto estranha, à luz do papel que essa crença desempenhou no surgimento da ciência - pois, se tal noção fosse verdadeira, a ciência nunca poderia ter começado.
Esta é a questão principal: há uma grande diferença entre Deus e os deuses, e entre um Deus que é o Criador e um Deus que é o Universo, como bem sabia James Maxwell quando, sobre a porta do famoso laboratório Cavendish Physics de Cambridge, mandou gravar estas palavras: "Grandes são as obras do Senhor; nelas meditam todos os que as apreciam".
Quando examinamos a história da ciência, temos todos os motivos para nos sentir gratos aos pensadores brilhantes, que deram o corajoso passo de questionar a visão mitológica da natureza, a qual atribuía a vários segmentos do Universo poderes divinos que eles não tinham. Vimos que alguns deles agiram assim, não apenas sem rejeitar o conceito de um Criador, mas em nome desse mesmo Criador. Talvez exista hoje o sutil perigo de que, em seu desejo de eliminar completamente o conceito de um Criador, alguns cientistas e filósofos tenham sido levados, mesmo sem querer, a re-deificar o universo, dotando a matéria e a energia de poderes criativos, os quais não se pode demonstrar de forma convincente que elas tenham. Banindo o único Deus Criador, eles chegariam ao que tem sido descrito como a máxima do politeísmo: um universo no qual todas as partículas têm capacidades divinas.
(Trechos do capítulo 3 de Por Que
a Ciência não Consegue Enterrar Deus, do matemático e pesquisador John
Lennox. Ed. Mundo Cristão)
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