quinta-feira, 20 de março de 2014

A Ciência Precisa do Ateísmo? - Parte IV



O LEGADO DE GALILEU

A doutrina da criação foi importante por dois motivos, sendo o primeiro já exposto no artigo anterior: importante para o surgimento da ciência devido a seu vínculo com a ordem do universo. O segundo motivo veremos a partir de agora, no prosseguimento aos extratos da obra sub-citada:


Para a ciência se desenvolver, o pensamento precisou libertar-se do onipresente método aristotélico de deduzir de princípios fixos como o universo deveria ser, avançando para uma metodologia que permitisse que o universo falasse diretamente. A mudança fundamental de perspectiva tornou-se muito mais fácil pela noção de uma criação CONTINGENTE, isto é, que o Deus Criador poderia ter criado o universo de qualquer modo que lhe aprouvesse. Consequentemente, para descobrir como o Universo realmente é ou como ele de fato funciona, não há alternativa para a qual voltar-se ou a analisar. Não se pode deduzir como o universo funciona simplesmente raciocinando a partir de princípios filosóficos em prioridade. Foi exatamente isso que fez Galileu, e mais tarde Kepler e outros fizeram: foram olhar... E revolucionaram a ciência. Mas, como todos sabem, Galileu meteu-se em encrencas com a Igreja Católica Romana.
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Há importantes lições a inferir da história de Galileu. 1º, uma lição para aqueles que estão dispostos a levar o relato bíblico a sério. É difícil imaginar que alguém ainda credite que a Terra é o centro do universo com os planetas e o sol girando em torno dela. Aceita-se a visão heliocêntrica de Copérnico, pela qual Galileu lutou, e não se pensa que ela esteja em conflito com a Bíblia, embora praticamente todo mundo no tempo de Copérnico e antes dele pensasse como Aristóteles, que a Terra fosse o centro físico do Universo e fizesse uma leitura literal de partes da Bíblia para apoiar essa noção.  O que aconteceu para fazer a diferença?
Aconteceu simplesmente que agora se tem uma visão mais sofisticada, mais detalhada da Bíblia, e podemos ver que, quando por exemplo, a Bíblia fala do sol “surgindo”, ela está falando fenomenologicamente, isto é, fazendo uma descrição do que parece aos olhos de um observador, em vez de implicar um compromisso com uma teoria solar e planetária específica. Os cientistas de hoje fazem exatamente o mesmo: em suas conversas normais, eles também falam do “sol que surge”, e, em geral,  suas afirmações não são tomadas como eles sendo obscurantistas aristotélicos!
A importante lição é que devemos ser suficientemente humildes para diferenciar entre o que a Bíblia diz e a nossa interpretação dela. O texto bíblico... pode ser mais complexo do que inicialmente imaginamos e, em consequência, podemos correr o risco de usá-lo para apoiar ideias que ele nunca pretendeu ensinar.  Assim pensava Galileu em sua época, e a História mostra que ele estava certo.
Coube a Galileu, que acreditava na Bíblia, promover um melhor entendimento científico do universo, não apenas contra o obscurantismo dos religiosos da época, mas primeiramente contra a resistência e também obscurantismo dos filósofos seculares de sua época que, como os religiosos, também eram convictos discípulos de Aristóteles. Os filósofos e cientistas de hoje também precisam ser humildes à luz dos fatos, mesmo que esses fatos lhes sejam mostrados por alguém que em Deus. A ausência da crença em Deus não garante mais a ortodoxia científica do que a crença em Deus. O que está claro, na época de Galileu e na nossa, é que a crítica de um paradigma científico dominante está repleta de riscos, independentemente de quem está envolvido nela.

O CONFLITO REAL: NATURALISMO X TEÍSMO
Há um conflito, um conflito muito real, mas não se trata na verdade de um conflito entre ciência e religião. De modo nenhum; pois se assim fosse, a lógica elementar exigiria que todos os cientistas fossem ateus e que apenas os não cientistas acreditassem em Deus. Isso, como já vimos, simplesmente não acontece. O verdadeiro conflito se trava entre duas cosmovisões diametralmente opostas: o naturalismo e o teísmo. Elas inevitavelmente se chocam.
...O naturalismo se opõe ao sobrenaturalismo, insistindo que “o mundo da natureza deve formar uma única esfera sem incursões externas de almas ou espíritos, divinos ou humanos” (Oxford Companion to Philosophy, pg 604). ... O naturalismo [é], portanto, intrinsecamente ateu.
Carl Sagan expressou com econômica elegância nas palavras de abertura de seu aclamado seriado televisivo COSMOS: “O Cosmos é tudo o que existe, ou existiu, ou sempre existirá.” Essa é a essência do naturalismo... Assim, nada mais existe além da natureza. Trata-se de um sistema fechado de causa e efeito. Não existe uma esfera do transcendente ou sobrenatural. Não existe um “lado de fora”.
Diametralmente oposta ao naturalismo ... está a visão teísta do universo, que encontra sua expressão clara nas palavras de abertura do Livro da Gênese: “No princípio, Deus criou os céus e a terra.” (Gn 1.1). Aqui está uma asserção de que o universo não é um sistema fechado, mas uma criação, um artefato da mente de Deus, mantido e sustentado por Ele. É uma resposta à pergunta: Por que existe o Universo? É porque Deus ocasiona sua existência.
A declaração de Gênesis é uma declaração de fé, não uma declaração de ciência, exatamente como a asserção de Sagan não é uma declaração de ciência, mas de sua crença pessoal.
Que visão de mundo a ciência sustenta: o naturalismo ou o teísmo?
O cientista E. O. Wilson não tem dúvidas quanto à resposta: “O humanismo científico é a única cosmovisão compatível com o crescente conhecimento científico do mundo real e das leis da natureza”.
O estudioso de Química Quântica Henry Schaeffer III também não tem dúvidas em relação à sua resposta: “Deve existir um Criador. As reverberações do BIG-BANG e as subsequentes descobertas científicas apontam com clareza para uma criação ... consistente com os versículos de abertura do livro da Gênese”. (Ambos os testemunhos colhidos do artigo Science: Christian Perspectives for the New Millennium, em The Big Bang, Stephen Hawking and God).

Para apurar a relação entre as visões de mundo e a ciência, precisamos agora fazer uma pergunta surpreendentemente difícil: o que é exatamente CIÊNCIA? 


(Trechos do capítulo 1 de Por Que a Ciência não Consegue Enterrar Deus, do matemático e pesquisador John Lennox. Ed. Mundo Cristão)
Segue na Próxima Postagem...

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